As Salinas de Rio Maior, as chamadas Marinhas de Sal, encontram-se em pleno sopé da Serra dos Candeeiros, a trinta quilómetros do mar. Rodeadas de arvoredo e terras de cultivo, as Marinhas de Sal apresentam-se como uma minúscula aldeia de ruas de pedra e casas de madeira, onde se destacam uns peculiares tanques de formas e dimensões irregulares, que a partir da Primavera se enchem de água salgada e dão origem a verdadeiras pirâmides de sal.
Todos os anos, aproximadamente entre Maio e Outubro, Casimiro Ferreira desce às Salinas para se dedicar à faina do sal sem mar. É Presidente da Direcção da Cooperativa dos Produtores de Sal de Rio Maior, tem 75 anos e trabalha há mais de 60 nesta actividade. “Vim para aqui com 10 anos ajudar o meu pai, vinha trazer-lhe o almoço e o jantar e, às vezes, a ceia. Trabalhavam de noite e de dia. Noutros tempos era assim. Depois comecei a fazer também algumas coisinhas e fiquei por aqui. Tive possibilidades de arranjar bons empregos noutros lados, mas apaixonei-me por isto”.
É uma lida cuja história começa há 200 milhões de anos, quando o mar ainda ocupava este lugar. Ao recuar, o mar deixou inúmeros fósseis de animais marinhos, que ainda podem ser encontrados na Serra dos Candeeiros, e um lago que foi secando, mas que deixou no local, a 60 metros de profundidade, uma mina de sal-gema. Por esta mina passa uma corrente de água, cujo caudal dá origem a água sete vezes mais salgada do que a do mar.
Reza a tradição que o poço actual foi aberto devido ao acaso. Uma rapariga que trazia a pastar uns animais tentou beber água numa poça que emergia num juncal, para matar a sede. Mas o sabor salgado foi tão desagradável, que acabou por comentar o sucedido ao chegar a casa. O seu pai e os vizinhos apressaram-se ir cavar no tal sítio, de onde surgiu o poço actual.
As Salinas de Rio Maior têm oito séculos de história. Conta Casimiro Ferreira que, em 1177, Pero d’Aragão e a sua mulher Sancha Soares terão vendido uma parte do poço e das Salinas à Ordem dos Templários. “Essa Ordem fez a compra e depois deverá ter doado a outras pessoas, aqui destas aldeias. A partir daí temos recebido as Salinas de geração em geração. É uma propriedade que tem 22 mil metros quadrados, mas é de cerca de 80 pessoas, que a têm recebido como herança”.
Nas Marinhas de Sal, o trabalho é idêntico ao que se faz à beira-mar. Mas é diferente o ambiente campestre e as casinhas de madeira em redor. Diferente é também o próprio estilo dos marinheiros e, claro, o poço que vemos ao centro, junto ao qual está ainda colocada, simbolicamente, uma picota, o engenho que no passado servia para retirar a água salgada. Hoje é retirada com a ajuda de um motor e colocada, numa primeira fase, nos esgoteiros, depósitos através dos quais a água vai evaporando. Daí segue para os talhos, onde repousa durante seis dias, até evaporar por completo. Forma-se então no local um autêntico manto branco. O sal está pronto para ser colocado, em forma de pirâmide, nas chamadas eiras, onde fica a secar durante 60 horas. Por fim, é recolhido, tratado e comercializado.
O sal que agora é depositado em grandes armazéns da Cooperativa, era antigamente colocado nas cerca de cem casinhas de madeira existentes nas Salinas, totalmente construídas em madeira, inclusive as fechaduras e respectivas chaves, para evitar a corrosão do sal. Também em tempos passados, algumas destas casas serviam de tabernas, por onde passavam os salineiros depois do trabalho. Aqui surgiram as chamadas réguas de escrita, feitas em madeira, que ainda hoje podem ser vistas nas Marinhas de Sal. Cada uma delas representava a conta de um freguês, onde o taberneiro colocava, através de sinais, a despesa que o cliente ia fazendo ao longo da safra e os pagamentos efectuados. “Por exemplo, se o cliente bebesse um copo de vinho, o taberneiro desenhava um tracinho na régua. Um litro de vinho correspondia a uma bolinha e meio litro a uma bola com uma cruzinha ao meio. Era assim que as pessoas se guiavam”, explica Casimiro Fróis. O pagamento era sempre feito em sal.